Vyda Orion Ref Power | Audio & Cinema em Casa 270-1

Jorge Gonçalves

 

AV.Y.G.E.R. foi fundada em 1993 por Giuseppe Viola, o qual pôs em prática a sua vasta experiência na fabricação de peças mecânicas de alta precisão, sendo a primeira linha de produtos constituída por giradiscos que rapidamente conquistaram a admiração de muitos entusiastas, devido não só à sua complexidade mecânica mas também à magnificência da sua construção, que tinha em consideração aspectos matemáticos e de análise cinética. Mais tarde, em conjunto com Enrico Datti, Giuseppe desenvolveu um braço com suspensão de ar nos dois eixos e que utiliza uma pressão muito elevada no sistema pneumático.

Recentemente a V.Y.G.E.R. virou as suas atenções para os cabos, e Enrico Datti criou uma nova empresa virada exactamente para a fabricação deste tipo de acessórios, a VYDA Laboratories, a qual lançou uma linha completa de produtos de referência com tratamento altamente sofisticado em termos metalúrgicos. Aliás, a descrição da tecnologia utilizada no cabo de sector Orion Reference de que vou falar neste texto dava quase para escrever um compêndio de metalurgia: condutores maciços de cobre ultra-seleccionado de classe II (cobre de elevadíssima condutividade utilizado para transporte de correntes muito elevadas), tratado criogenicamente desde a temperatura ambiente até à do azoto líquido; configuração de blindagem no tipo semibalanceado; estrutura geométrica do tipo helicoidal optimizada em função do comprimento do cabo e com controlo de ressonância; valores de L, C e R igualmente optimizados em função do comprimento do cabo; nível eleva- do de isolamento mecânico dos cabos com recurso a materiais amorfos inelásticos e Teflon; quatro níveis de isolamento em relação a RFI/EMI com várias interposições de camadas de blindagem não magnética de cobre e alumínio; terminações não magnéticas dos pinos de contacto, banha- dos por camadas múltiplas de ródio, cada uma delas com 15 micrómetros.

Um cabo destes não pode ser bara- to, como é evidente e como veremos no fim. Aliás, basta pegar nele para se ficar imediatamente com a sensação de qua- lidade e, como todos nós sabemos, não há muitos casos em que a qualidade não tenha um preço. O diâmetro da man- ga protectora externa em nylon (quase 3 cm!) e os imponentes blocos de aço incho que definem a estrutura das fichas de liga- ção colocam-nos imediatamente em res- peito. Teria que ser inserido num sistema à altura: colunas Quad ESL 63 Pro, amplifi- cação Constellation Inspiration 1.0 (prévio e amplificador de potência), leitor de CD/ SACD Accuphase DP-85. A cablagem de in- terligação e colunas era da linha Select, da Kimber. Para os ensaios o Orion Reference foi utilizado como cabo de alimentação do amplificador de potência Constellation, si- tuação que me pareceu a mais lógica em face dos níveis de corrente postos em prá- tica. O cabo que ele substituiu era um cabo de estrutura blindada, condutores multifi- lares e fichas de ligação Furutech e que me tem prestado muitos e bons serviços.

A discussão sobre o impacte exacto que o cabo de sector tem na performance de um dado equipamento de áudio é muito velha e tem enchido páginas e páginas de revistas em papel ou na Internet. Mas uma coisa é certa: o cabo de sector é o primeiro elemento num sistema de áudio e toda a melhoria que se possa fazer na base de um sistema só se pode traduzir em melhoria no som que ouvimos a par- tir das colunas. Recordo-me perfeitamente das intermináveis discussões em torno das vantagens e inconvenientes dos filtros de sector na altura em que lançámos o filtro de sector da Audio, já lá vão mais de vinte e cinco anos. Pois hoje «não há cão nem gato» que não fabrique este tipo de acessórios, ou seja, ninguém põe em cau- sa que o seu uso pode contribuir para melhorar o som de um sistema.

Parti então de espírito aberto para as audições, como seria de esperar, e é mi- nha obrigação desde já exarar aqui que o Orion Reference é nada menos que o melhor cabo de alimentação de sector que já experimentei. A primeira coisa que se des- taca é o profundo silêncio intersticial que reforça o prazer de ouvir cada nota de música, proveniente cada uma delas de uma negritude que se transforma em luz perante cada um dos sons emitidos. Ao mesmo tempo, pude constatar uma abertura, uma transparência, uma coerência harmónica que se conjugam para atribuir à música um carácter de «facilidade», pois ela sai das colunas sem quaisquer peias, sol- ta, livre e atmosférica. Em obras sinfónicas de grande complexidade, como por exemplo a Scherazade, de Rimsky-Korsakov, a reprodução das mais ligeiras texturas e nuances musicais tinha uma beleza alta- mente aliciante e mesmo cativante, bem como com peças de jazz já por mim ouvi- das por centenas de vezes, tais como o disco Somethin’ Else, de Cannonball Adderley, onde o ligeiro roçar das «vassouras» pelos pratos tinha tanta presença como as bati- das mais fortes nos tambores da bateria.

De um modo global, o palco sonoro adquiriu uma profundidade e extensão tais que, ajudadas pelas tão gabadas capacidades de recriação espacial das Quad 63, me fizeram sentir que tinha na minha frente como que imagens holográficas que permitiam a cada instrumento individual e cada intérprete respirar de uma maneira quase sublime. No que se refere aos graves, e embora as Quad 63 não sejam propriamente uns portentos nesta área, não só aumentou a extensão como os graves mais potentes adquiriram uma bonita combinação de articulação e refinamento que impressionavam, por um lado, e me punham quase automaticamente a bater o pé. Tentei encontrar defeitos nestes VYDA, mas não consegui. O único que posso alvi- trar é o facto de custarem um número bem elevado de ordenados mínimos, o que me faz ter uma pena imensa de não lhes con- seguir chegar. Mas não terei seguramente inveja dos privilegiados que os consigam levar para casa. Este cabo é um dos melhores factores de melhoria da qualidade de vida de um sistema de áudio.

 

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